Crítica: RoboCop

Antes de começar a escrever sobre o filme, gostaria de ressaltar que adoro o trabalho e a carreira do José Padilha. O diretor brasileiro é um cara admirável não apenas pelo lado profissional. Por isso é muito difícil falar mal da sua versão de RoboCop. Mas, infelizmente, alguém tem que fazer o trabalho sujo.

Mas antes de ressaltar os pontos negativos, vamos falar dos positivos. Padilha conseguiu reunir um belo elenco para o filme e praticamente todos os atores rendem muito bem em seus papeis. Joel Kinnaman está ótimo como Alex Murphy/RoboCop, assim como os veteranos Gary Oldman (que interpreta o cientista Dr. Dennett Norton), Michael Keaton (como o todo poderoso da OmniCorp, Raymond Sellars) e Samuel L. Jackson (no papel do apresentador do programa de TV sensacionalista The Novak Element, Patrick “Pat” Novak).

Outro acerto é a ideia central do filme: Um robô programado para fazer com que a lei seja cumprida pelos homens não tem como substituir um humano na hora de exercer essa função porque ele não tem sensibilidade para interpretar uma situação antes de aplicar uma determinada lei. Ele não tem consciência. Aplica o que está escrito e ponto final. Fora isso, o filme é um grande erro e o saldo é bastante negativo.

Embora a premissa do longa seja a mesma do anterior (Alex Murphy é um policial correto, que acaba assassinado por bandidos e transformado num policial robô para combater o crime), os filmes são bem diferentes. Se no clássico de 1987 dirigido por Paul Verhoeven o caos em Detroit, a insatisfação e ameaça de greve dos policiais com a chegada da OCP e a ameaça de um verdadeiro caos é evidente, no filme do Padilha isso passa quase despercebido. É notório que existe uma corrupção policial e uma ineficiência da polícia, mas a cidade não aparenta ser uma panela de pressão prestes a explodir a qualquer segundo e nem a polícia se sente ameaçada pela empresa de tecnologia OmniCorp, que luta no senado para derrubar uma lei que impede que o policiamento seja feito pelos robôs.

Essa lei, inclusive passa a ser o X da questão. Se no original a OCP contou com a ajuda dos políticos de Detroit para a criação dos policiais robôs para acabar com a comunidade e construir a tão sonhada Delta City, no filme de Padilha a política impede que isso vá adiante principalmente pelos motivos citados anteriormente. Falta de consciência e incapacidade de julgamento das máquinas. Por isso que, ao invés de uma escolha aleatória como no primeiro filme, Murphy agora foi escolhido a dedo por causa de seu caráter, comportamento, ética e senso de justiça confiável. Ele, ao contrário de uma máquina ou um policial violento e corrupto, hesita antes de atirar para não matar um inocente.

Outra grande falha do filme é a falta de um vilão decente. No filme de Verhoeven, Clarence Boddicker e sua gangue, que assassinaram Murphy e barbarizam a cidade, convencem nesse papel e se tornam peças fundamentais para que o policial robô recobre sua consciência e se vingue dos seus algozes. Já na versão atual o “vilão” é de uma canastrice capaz de deixar no chinelo o Coronel Miles Quaritch, vilão de Avatar. Simplesmenrte não dá pra engolir o “treinador” durão que não aceita o “robô consciente” no seu esquadrão.

Mas o maior crime cometido pelo diretor brasileiro é mesmo a falta de foco. Em um filme mais coeso e simples, Verhoeven usa a ironia e humor negro para discutir com brilhantismo questões como corrupção, autoritarismo, privatização, capitalismo e a natureza humana. Já Padilha deixou o humor, colocou outras questões na discussão (a paranóia americana, ética científica e política), abriu mais o leque, tenta discutir mais coisas e se perde totalmente.

Enquanto RoboCop atira com precisão milimétrica, Padilha usa uma metralhadora giratória e não acerta nada. Não se aprofunda em nenhum tema, pouco acrescenta ao debate e quando tenta humanizar a relação do homem-máquina com a sua família aí que o filme naufraga de vez. O motivo? A atriz que interpreta a esposa de Murphy é apenas razoável enquanto o ator mirim que dá vida ao filho do policial consegue ser mais inexpressivo que uma alface.

O único fator positivo que podemos tirar de RoboCop é que clássicos não precisam de refilmagem. Não se repinta a Monalisa e não se refilma um filme histórico. Que a próxima investida do Padilha nos Estados Unidos seja um filme original, de preferência, de sua autoria. Pois qualidade para isso ele tem de sobra.

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