Games: Uma lembrança gravada

Meu pai nem sempre estava em casa. Mas eu era apenas uma criança e ainda não tinha entendido muito bem que não podemos ter nossos pais o tempo todo com a gente, mesmo que fosse isso o que eu mais quisesse naquela época. Por isso ficava muito feliz ao ver o velho quando ele voltava para casa. Mas nem todas as vezes foram tão felizes como a que aconteceu em um final de tarde em 2001. Quando ele trouxe embaixo do braço uma grande caixa. Dentro, um Xbox. Sim, o primeiro, aquele tijolão preto.

Quantas manhãs e finais de semana não nos divertimos jogando todo tipo de jogos… Mas gostávamos mais dos games de corrida mesmo. E um deles era especial: Rally Sports Challenge. Eu tentava, mas bater os tempos do meu pai era uma tarefa impossível. Pelo menos naquela época. Mesmo assim, eu tentava. Às vezes tentava com tanta vontade, que ao confirmar, pela milésima vez, que não havia batido o recorde do velho, ficava com raiva dele. Mas ele, que sempre passava a mão na minha cabeça, bagunçando todo o meu cabelo, falava com um sorrisinho maroto no canto da boca: “Um dia você chega lá, moleque.”

Em uma manhã de domingo, durante mais uma tentativa frustrada, o amigo do meu pai bateu à porta como fazia em boa parte das manhãs de domingo. Ele sempre trazia um pequeno isopor com latinhas de cerveja e jogava uma delas para o meu pai quando ele abria a porta. Iam ver ao jogo. E como se fosse uma cena ensaiada, meu velho sempre se virava para mim e falava, abrindo a latinha: “Divirta-se, garoto. Eu volto mais tarde.”

Mas daquela vez ele não voltou. Eu tinha 6 anos quando meu pai morreu.

Dez anos depois, mexendo nas tralhas da garagem a procura de alguma coisa para matar o tédio de um final de semana em casa, achei aquele caixote preto. Peguei o Xbox e liguei aquele videogame ultrapassado por curiosidade. E lá estava aquele carro fantasma pilotado por meu pai a me desafiar no Rally Sports Challenge. Me enfurnei no quarto, estralei os dedos, respeitei fundo e comecei a correr.

A cada curva fechada feita com mais destreza, mais fluidez, a cada salto realizado com extremo controle, a cada derrapada milimetricamente calculada, fui superando o carro fantasma, que seguia lutando como se quisesse dizer: “Eu ainda estou aqui e ainda sou o melhor”. Mas eu insisti, e em um prova incrível, aquelas que você parece ter entrado em alfa, fazendo tudo como se fosse um reflexo natural de seu corpo, ultrapassei aquele Subaru Impreza transparente.

Ao ver a linha de chegada, senti o gosto de uma vitória suada e tão aguardada em minhas mãos, mas antes de quase tocá-la, parei. Parei e vi o Subaru fantasma passar zunindo, levantando uma nuvem de poeira, e pensei: “Eu me diverti, pai. Pode ter certeza”.

*Essa história é uma ficção baseada no caso real muito bem descrito no texto do professor Nelson Zagalo, da Universidade do Minho, que você pode ler aqui.

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